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  • Wladinéia Danielski

REFLEXÕES SOBRE A PANDEMIA: CORRESPONSABILIDADE

(um texto antigo, mas muito atual)


No ano de 2020 concretizou-se no mundo a pandemia do COVID-19. O vírus SARS-COV-2 (Severe Acute Respiratory Syndrome Coronavirus 2) disseminou-se trazendo adoecimento, morte, sofrimento, isolamento social, repercutindo na vida econômica, na vida escolar e em todos os aspectos da nossa existência. Como um efeito dominó, um novo jeito de viver foi levando a outro, e aquilo que foi chamado de novo normal foi se naturalizando entre todos. Alguns avaliando isso como ruim, outros acreditando no nascimento de um novo paradigma para a humanidade.


Para endossar esta última ideia trazemos Fritjof Capra e seu livro “A Teia da Vida”. (1996). No capítulo Ecologia Profunda - Um novo Paradigma, CAPRA (1996) fala que os problemas da época atual são sistêmicos, interligados e interdependentes, e que, quando não são entendidos desta maneira, é porque está em crise a percepção da realidade. Portanto ele sugere uma mudança de paradigma, transitando do mundo mecanicista de Descartes e de Newton para uma visão holística e ecológica do mesmo. Propõe a Ecologia Profunda, a qual olha para “(...) A teia da vida, que consiste em redes dentro de redes”. (p.45)


“A percepção ecológica profunda reconhece a interdependência fundamental de todos os fenômenos, e o fato de que, enquanto indivíduos e sociedades estamos todos encaixados nos processos cíclicos da natureza (e, em última análise, somos dependentes desses processos).” (CAPRA, 1996, p.25)


Ou seja, o autor chama para a responsabilidade para com a vida. O que é um dos grandes pontos chaves que emergiram a partir da pandemia: O que fizemos com a natureza? Quais violências infligimos ao nosso planeta?

SANTOS (2001) também fala em responsabilidade e ética. Segundo o autor, o conceito ético dominante da atualidade é aquele antropocêntrico e individualista, com visão estreita da subjetividade, e que funciona de forma linear:


Sujeito Þ Ação Þ Conseqüência


O conhecimento emancipação proposto por SANTOS (2001) sugere, em troca desta linearidade, uma nova ética, que seja regida pelo princípio da responsabilidade, que possibilite aquilo que ele tanto fala em seu livro: “conhecimento prudente, para uma vida decente” (p.112), em busca de um senso comum solidário, que considere o outro em sua subjetividade.


“O novo princípio da responsabilidade reside (...) na preocupação ou cuidado que nos coloca no centro de tudo o que acontece e nos torna responsáveis pelo outro, seja ele um ser humano, um grupo social, a natureza, etc, esse outro inscreve-se na nossa contemporaneidade e no futuro cuja possibilidade de existência temos de garantir no presente.” (SANTOS, 2001, P.112)


Da mesma forma que Santos, GUARESCHI (2000) avalia a crise da ética individualista e chama atenção para este novo modelo de ética:


“(...) vemos nascer um novo modelo de ser humano e de sociedade fundada na comunhão, na convivência, na superação de barreiras físicas e psicológicas, espaciais e temporais, territoriais e culturais.” (GUARESCHI, 2000, p.9)


Nesse novo modelo, que equivale ao conceito de Solidariedade de Santos (termo este encontrado por vezes no texto de Guareschi), o autor em questão assinala a importância da dimensão crítica da ética, a qual deve pensar sempre em uma ética que constantemente se atualiza e se transforma, sempre num sentido social e relacional, e considerando o outro e a sua subjetividade.

Estas várias interfaces da vida, e da ética por consequência, é que fazem concluir que Edgar Morin e sua Teoria da Complexidade, somada a sua visão sistêmica, propõe a dialética necessária para as discussões sobre a vida e a morte, sobre responsabilidade e impunidade.

Complexo significa “tecido junto”. O tecido se constitui de elementos inseparáveis e que fazem parte do todo: o psicológico, o sociológico, o político, o econômico, o afetivo, o técnico, o racional, o mítico. Complexa é a junção de todos esses elementos, construindo mais do que tudo isso, em um todo, o ser do homem. A complexidade é a junção da unidade com a multiplicidade. É o emaranhamento de ações e de interações recíprocas.


Aprendeu-se a pensar de forma separada e o que se propõe nessa Teoria da Complexidade é um novo paradigma: o ser humano é de natureza multidimensional e simultânea. Os sonhos, as fantasias e as realidades são parte da vida do homem, e esta vida é mais do que a soma dessas partes. Cada homem é todo o cosmos e, como tal, deve comprometer-se com um fazer prudente e emancipatório, o qual, poeticamente, pode ser dito da seguinte maneira: o homem não alcançou o limite do gênio humano, mas pode, a cada dia, buscar a genialidade em si mesmo e nas relações com os demais e com o mundo.


É deste novo normal que o mundo pós pandêmico necessita.


REFERÊNCIAS


CAPRA, Fritjof. A teia da vida. São Paulo, Cultrix, 1996.

GUARESCHI, Pedrinho. Ética, Justiça e Direitos Humanos. In: Psicologia, Ética e Direitos Humanos. São Paulo, Casa do Psicólogo / CFP, 2000.

MORIN, Edgar. Epistemologia da Complexidade. In: SCHMITMANN, Dora F. (org.). Novos paradigmas, cultura e subjetividade. Porto Alegre, Artmed, 1996. p.275-286.

SANTOS, Boaventura de S. A crítica da razão indolente: contra o desperdício da experiência. 3 ed. São Paulo, Cortez. 2001.

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