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  • Wladinéia Danielski

FAMÍLIA: Ninho ou nó?

Certa vez eu assistia a um programa de televisão onde uma atriz norte americana comentava um longa metragem infantil (desenho da Disney) no qual ela fazia a voz da heroína do desenho. Ao comentar o filme ela disse que quando se tornou mãe e, em decorrência disso, passou a reler as antigas histórias infantis, percebeu que, em geral, as famílias dos heróis não apareciam. Ela questionou-se do porque disso.


Essa colocação me fez pensar também... De fato, quem de nós ouviu falar nos pais da Branca de Neve? Ou da Cinderela? Quem de nós já não se perguntou por que a mãe de Bambi morre no início da história? Ou onde estavam os pais dos Três Porquinhos quando o lobo correu atrás deles? Nos casos dos desenhos mais atuais, porque o pai de Simba, o Rei Leão, morre? Porque Mulan, para tornar-se a heroína da China, sai de casa deixando pai e mãe para trás?


Então me lembrei da história do Filho Pródigo, da Bíblia. Deixando de lado todas as considerações religiosas que esta parábola quer ensinar, cheguei à conclusão que sair de perto da família, nesses exemplos citados, sempre foi para propiciar a transição de uma fase da vida para a outra. E percebi que, no final, os filhos sempre voltavam para casa. Não voltavam iguais a como saíram. Voltavam refeitos, redimensionados. Mas voltavam.


Lembro-me agora de uma história que montei junto com uma criança de seis anos:

“Havia uma árvore, nessa árvore um ninho, nesse ninho estavam mamãe passarinho, papai passarinho e filhote passarinho. Veio uma tempestade que quebrou o galho da árvore e fez com que o ninho caísse no chão. Nesse momento papai passarinho voou para um lado, mamãe passarinho voou para o outro lado e o filhotinho, que já sabia voar, fez o quê?”

Respondeu então a criança: “Voou para o seu lado. E quando a tempestade passou o pai, a mãe e o filho construíram outro ninho”.


Parece-me que esta criança revelou, com suas palavras de criança, aquilo que é de fato uma família: um ninho de onde devemos sair e para onde podemos voltar depois de passada a tempestade.


Ficar nesse ninho para sempre é um nó, pois sugere excesso de proteção, limitação espacial e existencial, precariedade no desenvolvimento emocional. Sair desse ninho para sempre também é um nó, pois sugere um rompimento com nossas raízes, com nossa história, com nossa identidade e, fundamentalmente, com nossa afetividade.


Portanto, parece que o movimento de ir e vir é que de fato trás o crescimento. Assim como fez o Filho Pródigo, como fez Branca de Neve, como fez Simba, e assim por diante.

Reporto-me agora a minha formação em Movimentos Grupais, já que a família é o primeiro grupo onde nos inserimos ao nascermos. Ao estudarmos as fases evolutivas de um grupo, percebemos que primeiramente os membros do grupo apresentam comportamentos vorazes, como se fossem bebês que necessitam ingerir afeto e satisfazer suas necessidades de afiliação e reconhecimento. Na segunda fase, o grupo torna-se mais produtivo e cada membro começa a delimitar seu papel perante os outros. Surgem comportamentos competitivos e antagônicos entre os membros, como se estes fossem verdadeiros adolescentes. E, por fim, na terceira fase ocorre a elaboração da fase anterior, passando os membros do grupo a sensibilizarem-se mais uns com os outros, comunicando-se mais com o ambiente. Equivale a alcançar o estágio adulto do desenvolvimento grupal. Portanto, já que a família é o primeiro grupo onde nos inserimos, as mesmas fases são vividas (ou pelo menos deveriam ser) pelos membros da mesma: voracidade, delimitação dos papéis, elaboração e comunicação.


De acordo com o raciocínio feito anteriormente coincidiria com a segunda fase a saída do ninho familiar, e com a terceira fase o retorno para este ninho familiar, porém, agora reelaborado. Se nossa família passará necessariamente por estas fases, dependerá da permissão que dermos para cada membro para levantar seu vôo.


Permissão esta que o pai de Mulan deu para ela antes que ela partisse para a guerra:


“A flor que desabrocha na adversidade é a mais bela e forte de todas”.



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